Associação Cavaleiros da Cultura
"A leitura assumiu para mim a maior relevância, nela reconheço elemento indispensável à formação da juventude".
Oscar Niemeyer
Por: Mussa Calil

Escrever certo por linhas tortas é possível.
Perfeitamente possível, portanto, chegar-se ao destino correto pelas vias mais tortuosas que serpenteiam entre os morros das geraes.
Ou, talvez, que as rotas poeirentas do sertão levavam a colonização do leste para o oeste, trazendo de volta as riquezas paridas pela terra bruta, em forma de pedras preciosas para gerar fortunas ou preciosas criaturas para gerar alimentos, e exorcizar o demônio da fome.
A verdade é que tanto Bat Masterson, nascido no Velho Oeste da ficção, como Zé Feição, paródia do herói rural, nascido na opereta de cordel de Vila Nova, participaram deste vai e vem pelos trópicos dos respectivos hemisférios. Fazendo história e gerando canções.
"No velho oeste (ou na Vila Nova) ele nasceu / e entre bravos se criou / seu nome lenda se tornou ... Bat Masterson... Bat Masterson" (é o Zé Feição... É o Zé Feição).
... E passaram as décadas, e aceleraram o filme (forward)... Muitas rotas sertanejas receberam asfalto usinado, os corredores boiadeiros e as comitivas que tangiam o gado rumo aos frigoríficos ficaram no cancioneiro.
Peão montado em Corisco. Cavalo de Rodeio? Nada. Avião monomotor fabricado pela Embraer. Parte da platéia chega de Boeing... mas o que faz aquele grupo de cavaleiros à moda antiga, que inclui até um Meritíssimo Juiz de fora, de lenço no pescoço e celular na guaiaca?
Tal como no século passado, o sol a pino é um inferno a caminho de Barretos. Sorte que passa por São Sebastião. Do Paraíso.
- `tarde - cumprimenta o menino da porteira.
- `tarde - responde o ponteiro.
Chegando ao lugarejo de hoje, os dobrados da bandinha de ontem milagrosamente continuam no coreto. Mas, ao invés de uma boiada no piquete, os viajantes de sempre trazem um caminhão de livros. E em cada ponto da estrada, a comitiva semeia livros a mãos cheias. Parodiando Coelho Neto, em homenagem aos 100 anos do arquiteto que redesenhou uma Pátria, mesmo sabendo que talvez não vivesse para sua plena reconstrução.
Oscar Niemeyer fez a sua hora. Tal como Hegel, Marx, Lênin, Prestes, Che Guevara, Fidel Castro e uma legião de camaradas que foram às armas cada qual com um fragor, com um estampido e com um efeito.
Da mesma forma que existe o peão de obra (peão de engenheiro), existe o peão de estradão (peão de boiadeiro), imortalizado na obra do grande mestre, no santuário barretense do rodeio nacional.
Oscar passou cem anos pensando nos seus peões.
Amigos leais de Niemeyer realizaram a "Cavalgada do Centenário" no caminho entre passado e futuro, perpetuando tradições que merecem e incentivando o hábito libertário da leitura.
Como as grandes idéias devem ser perpetuadas, vida longa ao corredor boiadeiro Goianá-MG/Barretos-SP. E que a "Cavalgada do Centenário" seja rebatizada a partir de 2008 como "Cavalgada Niemeyer 101"... "Cavalgada Niemeyer 102.., 103..., 113........ Até o último dia do final de todos os tempos.
Mussa Calil Neto,
Membro da ABC (Academia Barretense de Cultura)
Presidente de Os Independentes (Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos)